Estou a reler o mais recente livro de Paul Auster, Sunset Park. A história gira em torno de quatro jovens que ocupam um casebre perdido no meio da cidade de Nova Iorque e tem como enquadramento a recente crise económica, pelo que se passa algures no ano de 2008.
Estes jovens têm em comum o facto de se sentirem perdidos no meio de uma sociedade há muito também perdida no meio da cultura consumista, que sofre, com a crise, um abalo. A sociedade ocidental debate-se, mais do que com uma crise económica, com uma crise de valores, já que estes assentavam na economia de mercado consolidada nas últimas décadas. Os valores do consumismo, do parecer e não do ser, do trabalho e do dinheiro fácil, que trariam estatuto e valorização ao Homem. Agora, com a crise, tudo isto tende a modificar-se e, nós, os jovens, como devemos agir nesta época de transição?
Estes jovens tentam então sobreviver no meio da confusão a que foram expostos, e muitas vezes se fala no livro das apelidadas gerações do Pós-Guerra e do Vietname, contrapondo a energia, a honra e o esforço, principalmente da primeira, com o comodismo a que esta nova geração se habituou. As anteriores gerações tiveram de lidar com o fenómeno da guerra, e nós, os jovens de hoje, estamos de tal modo acomodados a uma vida rotineira e facilitada que nem conseguimos lidar com problemas mais mundanos e banais.
Assim, ao abandonarem os padrões estabelecidos pela sociedade, encarnando "ocupas" à margem da lei, os jovens conseguem libertar-se também dos fantasmas que lhes assobram a vida, e apreciar "a miraculosa estranheza de estar vivo", e então, finalmente, viver, e não serem apenas meros espectadores de um desenrolar aleatório de acontecimentos, que por acaso constam a ser as suas próprias vidas.
Este é um dos meus maiores medos. Olhar para trás e perceber que nada de importante fiz da minha vida, que ela passou-me ao lado, que falhei o meu destino.
E daí, se for destino, é impossível passar-lhe ao lado, não? Talvez.
Uma leitura que se recomenda, de um dos meus escritores favoritos.
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